Gordura abdominal e coagulação: por que a distribuição da gordura importa para o risco vascular
- Dr Thiago Bandeca
- há 5 dias
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Quando falamos em obesidade e risco cardiovascular, é comum olhar apenas para o peso ou para o IMC. Mas a medicina baseada em evidências vem reforçando que a distribuição da gordura corporal pode ser tão importante quanto a quantidade total de gordura.
Um estudo publicado em 2026 na revista Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology avaliou adultos de meia-idade do estudo NEO, na Holanda, e mostrou que medidas de gordura abdominal se associaram a alterações pró-trombóticas, isto é, alterações laboratoriais relacionadas a maior tendência de coagulação.
O que o estudo avaliou
Os pesquisadores avaliaram 1.759 participantes. A gordura visceral e a gordura subcutânea abdominal foram medidas por ressonância magnética, e a gordura no fígado foi avaliada por espectroscopia de ressonância magnética. Depois, esses achados foram comparados com marcadores da coagulação, como fatores VIII, IX, XI, fibrinogênio e parâmetros de geração de trombina.
Gordura visceral teve a associação mais forte
O principal achado foi que a gordura visceral, aquela localizada mais profundamente no abdome e ao redor dos órgãos, apresentou as associações mais consistentes com os marcadores de coagulação, tanto em homens quanto em mulheres. Esse padrão foi observado de forma dose-resposta: quanto maior a quantidade de gordura visceral, maiores tendiam a ser os marcadores pró-trombóticos.
Esse resultado reforça um conceito importante: duas pessoas com IMC semelhante podem ter perfis de risco diferentes, dependendo da distribuição da gordura, da cintura abdominal, do metabolismo, da presença de diabetes, pressão alta, colesterol alterado, sedentarismo e outros fatores.
Diferenças entre homens e mulheres
O estudo também observou diferenças por sexo. A gordura subcutânea abdominal se associou a marcadores de coagulação principalmente em mulheres, enquanto em homens esse padrão foi menos evidente. Já a gordura no fígado teve uma associação mais seletiva com o fator IX em ambos os sexos.
Essas diferenças mostram que risco cardiometabólico não deve ser interpretado de forma genérica. Sexo, idade, menopausa, distribuição de gordura, fígado, atividade física, tabagismo, pressão, glicose e colesterol fazem parte do mesmo raciocínio clínico.
O que isso significa para o paciente
A mensagem não é que toda pessoa com gordura abdominal terá trombose. O estudo é observacional e transversal, portanto mostra associação, não prova causa e efeito. Também avaliou marcadores laboratoriais relacionados à coagulação, não eventos clínicos diretamente em todos os participantes.
Ainda assim, o estudo ajuda a explicar por que a avaliação do risco não deve depender apenas do peso. Medida da cintura, pressão arterial, glicose, hemoglobina glicada, colesterol, triglicérides, função renal, histórico familiar, sono, atividade física e hábitos de vida precisam ser analisados em conjunto.
Como reduzir risco de forma prática
Não existe uma estratégia única para todos. Em geral, reduzir gordura visceral envolve alimentação mais estruturada, menor consumo de ultraprocessados e açúcar adicionado, atividade física regular, fortalecimento muscular, sono adequado, redução de álcool em excesso, cessação do tabagismo e controle de pressão, glicose e colesterol quando alterados.
A perda de peso pode ajudar, mas o foco deve ser saúde metabólica e cardiovascular, não apenas balança. Em alguns casos, o tratamento exige acompanhamento médico, nutricional e, quando indicado, uso de medicamentos ou outras estratégias individualizadas.
Mensagem final
A gordura abdominal não é apenas uma questão estética. Ela pode refletir um perfil metabólico mais desfavorável e se associar a alterações vasculares, inflamatórias e de coagulação. Por isso, prevenção cardiovascular moderna precisa olhar para a pessoa como um todo: composição corporal, exames, sintomas, hábitos, contexto e risco individual.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica. A interpretação de exames, risco cardiovascular e necessidade de tratamento deve ser individualizada.
Fonte principal: Verlaan JPL et al. Abdominal Fat Measures Are Associated With Sex-Specific Prothrombotic Changes in Middle-Aged Adults. Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology. 2026;46:e324252. DOI: 10.1161/ATVBAHA.125.324252.
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