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Triglicerídeos muito altos e pancreatite: por que o olezarsen pode mudar esse cenário

  • Foto do escritor: Dr Thiago Bandeca
    Dr Thiago Bandeca
  • 3 de jul.
  • 3 min de leitura

Triglicerídeos muito altos não são apenas um número alterado no exame de sangue. Em níveis severamente elevados, eles podem aumentar o risco de pancreatite aguda, uma inflamação do pâncreas que costuma causar dor intensa e pode evoluir com gravidade.

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine avaliou o olezarsen, um medicamento do tipo oligonucleotídeo antisense que reduz a produção de apolipoproteína C-III, proteína envolvida no metabolismo de partículas ricas em triglicerídeos. O resultado chamou atenção porque não avaliou apenas queda laboratorial dos triglicerídeos, mas também eventos de pancreatite aguda.

O que é hipertrigliceridemia severa?

No estudo, hipertrigliceridemia severa foi definida como triglicerídeos em jejum iguais ou acima de 500 mg/dL. Essa condição afeta aproximadamente 1 em cada 100 pessoas e pode ter consequências clínicas importantes, incluindo maior risco de pancreatite aguda.

Triglicerídeos muito elevados podem ocorrer por combinação de predisposição genética, diabetes, obesidade, resistência à insulina, álcool, alguns medicamentos, dieta, doença renal, alterações hormonais e outras condições. Por isso, a avaliação precisa ser individualizada.

Como o olezarsen foi estudado

Foram conduzidos dois ensaios clínicos de fase 3, internacionais, randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo: CORE-TIMI 72a e CORE2-TIMI 72b. Ao todo, 1.061 pacientes participaram da análise principal. Eles receberam olezarsen 50 mg, olezarsen 80 mg ou placebo mensalmente por 12 meses, além do tratamento padrão local para redução de lipídios.

O desfecho principal foi a redução percentual dos triglicerídeos em 6 meses. Também foram avaliados outros marcadores lipídicos e eventos de pancreatite aguda ao longo dos estudos.

O principal resultado: queda intensa dos triglicerídeos

A redução dos triglicerídeos foi expressiva. No CORE-TIMI 72a, a redução ajustada por placebo em 6 meses foi de 62,9 pontos percentuais com 50 mg e 72,2 pontos percentuais com 80 mg. No CORE2-TIMI 72b, foi de 49,2 e 54,5 pontos percentuais, respectivamente. Todos os resultados foram estatisticamente significativos.

Além dos triglicerídeos, houve reduções em apolipoproteína C-III, colesterol remanescente e colesterol não HDL. Esses marcadores ajudam a entender melhor a carga de partículas ricas em triglicerídeos e o risco cardiometabólico global.

O dado mais relevante: menos pancreatite aguda

O achado mais importante foi clínico. A incidência de pancreatite aguda foi menor no grupo que recebeu olezarsen em comparação ao placebo. A razão de taxas média foi 0,15, o que corresponde a uma redução relativa aproximada de 85% na incidência de pancreatite aguda no conjunto dos estudos.

Em termos práticos, os autores estimaram que seria necessário tratar 20 pacientes por 1 ano para prevenir 1 episódio de pancreatite aguda na população geral do estudo. No subgrupo de maior risco, com triglicerídeos iguais ou acima de 880 mg/dL e histórico de pancreatite, esse número foi 4.

Por que isso é uma mudança importante

Até agora, terapias convencionais como fibratos e ácidos graxos ômega-3 podiam reduzir triglicerídeos, mas seus efeitos costumavam ser modestos em hipertrigliceridemia severa e não havia demonstração clara de redução da incidência de pancreatite aguda nessa população.

Por isso, o estudo representa uma evidência robusta para um grupo de pacientes com risco alto e opções limitadas. Ainda assim, é importante lembrar que o medicamento foi estudado em um contexto específico, com critérios de inclusão, acompanhamento rigoroso e monitorização de segurança.

Segurança e cautelas - triglicerídeos altos

A incidência geral de eventos adversos pareceu semelhante entre os grupos. Porém, a dose de 80 mg apresentou mais elevações de enzimas hepáticas e mais episódios de plaquetas abaixo de 100.000 por microlitro. Também foi observado aumento dose-dependente da fração de gordura hepática em ressonância magnética.

Esses pontos reforçam que a redução dos triglicerídeos não deve ser vista isoladamente. Qualquer tratamento para hipertrigliceridemia severa precisa considerar fígado, plaquetas, diabetes, função renal, medicamentos em uso, risco de pancreatite, risco cardiovascular e acompanhamento longitudinal.

Tryngolza - Triglicerídeos muito altos e pancreatite: por que o olezarsen pode mudar esse cenário

O que o paciente deve fazer hoje

Pacientes com triglicerídeos muito altos devem procurar avaliação médica. O primeiro passo é confirmar o valor, investigar causas secundárias, revisar medicamentos, avaliar diabetes, álcool, peso, função renal, tireoide, dieta, histórico familiar e episódios prévios de pancreatite.

Também é essencial seguir medidas individualizadas de estilo de vida e tratamento já estabelecidas, quando indicadas. Olezarsen não deve ser entendido como automedicação nem como substituto de acompanhamento médico. A disponibilidade, indicação e segurança dependem de avaliação especializada e do contexto regulatório de cada país.


Triglicerídeos muito altos e pancreatite: por que o olezarsen pode mudar esse cenário

O estudo com olezarsen traz uma mensagem importante: em hipertrigliceridemia severa, reduzir triglicerídeos pode ir além de melhorar exames. Para pacientes de alto risco, a redução de pancreatite aguda é um desfecho clínico concreto e relevante.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica. Não inicie, suspenda ou modifique tratamentos para triglicerídeos, colesterol, diabetes ou pancreatite sem orientação profissional.


Fonte principal: Marston NA et al. Olezarsen for Managing Severe Hypertriglyceridemia and Pancreatitis Risk. New England Journal of Medicine. 2026;394:429-441. DOI: 10.1056/NEJMoa2512761.

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