Inflamação cardiovascular residual: o que o estudo POSEIDON revela sobre risco além do colesterol
- Dr Thiago Bandeca
- há 1 dia
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Quando falamos em prevenção cardiovascular, é comum pensar apenas em colesterol, pressão arterial, diabetes, peso e tabagismo. Esses fatores continuam centrais. Mas uma parte do risco cardiovascular pode permanecer mesmo quando o tratamento está bem conduzido. Esse conceito é chamado de risco residual.
Um dos componentes desse risco residual é a inflamação cardiovascular. O estudo POSEIDON, um estudo global, prospectivo, transversal e de mundo real, avaliou a frequência de proteína C-reativa ultrassensível elevada, ou hsCRP, em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, doença renal crônica ou insuficiência cardíaca.
O que é hsCRP?
A hsCRP é uma medida laboratorial de inflamação sistêmica de baixo grau. Em estudos cardiovasculares, valores iguais ou acima de 2 mg/L costumam ser usados como marcador de maior risco inflamatório. Isso não significa, porém, que o exame sozinho diagnostique doença cardíaca ou determine tratamento automaticamente.
A interpretação depende do contexto. Infecções, doenças inflamatórias, obesidade, tabagismo, sedentarismo, alterações metabólicas, doença renal e várias outras condições podem elevar a proteína C-reativa. Por isso, o resultado precisa ser avaliado junto com sintomas, histórico, exames e fatores de risco.
O que o POSEIDON avaliou
O estudo incluiu 18.904 pacientes em 18 países. Foram avaliados pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica, com ou sem doença renal crônica, e pacientes com insuficiência cardíaca, incluindo subgrupos com fração de ejeção preservada, levemente reduzida ou reduzida.
A inflamação cardiovascular foi definida no material como hsCRP igual ou acima de 2 mg/L, medida em uma única amostra de sangue durante visitas de rotina, com revisão do histórico médico dos 12 meses anteriores.
O principal achado: inflamação ainda é comum
Entre pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica e doença renal crônica, 39,3% apresentavam hsCRP elevada. Entre pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica sem doença renal crônica, a prevalência foi de 28,3%. Isso sugere que a doença renal pode identificar um grupo com maior carga inflamatória residual.
Nos pacientes com insuficiência cardíaca, a prevalência foi semelhante entre os subtipos: 38,8% em fração de ejeção preservada, 38,1% em fração levemente reduzida e 38,2% em fração reduzida. Em linguagem simples, cerca de 2 em cada 5 pacientes com insuficiência cardíaca tinham evidência laboratorial de inflamação cardiovascular pelo critério do estudo.
Por que isso importa para a cardiologia prática
O estudo reforça que risco cardiovascular não deve ser entendido apenas como LDL alto ou pressão elevada. Em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica, pode haver risco residual mesmo com uso frequente de terapias recomendadas em diretrizes.
Isso não significa que todos os pacientes devam pedir hsCRP por conta própria. Significa que, em contextos selecionados, a inflamação pode fazer parte da avaliação global de risco, especialmente quando o médico está tentando entender por que o risco permanece alto apesar do tratamento dos fatores tradicionais.
Inflamação não é um diagnóstico isolado
Um erro comum é interpretar hsCRP elevada como se ela apontasse diretamente para uma doença específica. Não é assim. A proteína C-reativa pode subir por muitos motivos, inclusive infecção recente, obesidade, doença inflamatória, tabagismo e alterações metabólicas. A utilidade do exame depende da pergunta clínica feita antes de solicitá-lo.
Também é importante lembrar que o POSEIDON é observacional e transversal. Ele mostra prevalência de inflamação cardiovascular em grupos específicos, mas não prova que reduzir hsCRP, isoladamente, mude desfechos nesses pacientes. Para isso, são necessários ensaios clínicos desenhados para testar intervenções e resultados clínicos.
O que o paciente pode fazer hoje
A forma mais consistente de reduzir risco cardiovascular continua sendo controlar bem os fatores conhecidos: pressão arterial, colesterol, diabetes, peso abdominal, tabagismo, sedentarismo, sono, alimentação, adesão ao tratamento e acompanhamento médico regular.
Em pacientes com doença cardiovascular, doença renal crônica ou insuficiência cardíaca, a consulta deve avaliar risco de forma integrada. A pergunta não é apenas “meu colesterol está bom?”, mas “meu risco global está controlado?”. Essa visão inclui coração, rins, metabolismo, inflamação, sintomas, exames e trajetória clínica.
Mensagem final
O estudo POSEIDON mostra que inflamação cardiovascular residual é comum em pacientes de maior risco, especialmente na combinação de doença aterosclerótica com doença renal crônica e nos diferentes subtipos de insuficiência cardíaca. Para a prática clínica, a mensagem é reforçar a avaliação global e individualizada do risco, sem reduzir o paciente a um único marcador laboratorial.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica. A solicitação e interpretação de hsCRP ou qualquer exame de risco cardiovascular deve ser individualizada por profissional habilitado.
Fonte principal: material Medscape Medical Affairs sobre o estudo POSEIDON, desenvolvido sob direção e patrocínio da Novo Nordisk. Referências citadas no material: Navar AM et al., POSEIDON, apresentação oral no European Atherosclerosis Society Congress 2026; Lam CSP et al., European Journal of Heart Failure, 2026; ClinicalTrials.gov NCT06122961; ACC Scientific Statement sobre inflamação e doença cardiovascular, 2026.
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