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Cardiologia clínica em 2026: as principais novidades que podem mudar a prática

Foto do escritor: Dr Thiago Bandeca
Dr Thiago Bandeca
15 de set.
4 min de leitura

Setembro de 2026 concentra algumas das atualizações mais relevantes do ano em cardiologia clínica. O ESC Congress 2026, realizado em Munique no fim de agosto, apresentou novas diretrizes, uma nova definição universal de infarto do miocárdio e ensaios clínicos com potencial para modificar a prática. A seguir, revisamos os principais pontos e o que eles significam para o cuidado cardiovascular.

1. Insuficiência cardíaca: nova classificação pela fração de ejeção

A Diretriz ESC 2026 para insuficiência cardíaca trouxe uma mudança conceitual importante. A categoria de insuficiência cardíaca com fração de ejeção levemente reduzida, antes definida como FEVE entre 41% e 49%, foi retirada. A classificação passa a utilizar dois fenótipos principais: insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, com FEVE abaixo de 50%, e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, com FEVE igual ou superior a 50%.

A mudança procura aproximar a classificação da fisiopatologia e da resposta terapêutica observadas nos estudos. A diretriz também incorpora uma classificação em estágios, do paciente com fatores de risco até a insuficiência cardíaca avançada, reforçando prevenção, diagnóstico precoce e intervenção oportuna.

Outro ponto relevante é a recomendação Classe I para antagonistas do receptor mineralocorticoide na insuficiência cardíaca crônica independentemente da fração de ejeção. Semaglutida e tirzepatida recebem recomendação Classe IIa em pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada e obesidade.

2. Fibrilação atrial: anticoagular pacientes de risco intermediário?

O estudo SINGLE-AF abordou uma das áreas de incerteza da prática clínica: pacientes com fibrilação atrial e risco intermediário de acidente vascular cerebral. Publicado no New England Journal of Medicine em 28 de agosto de 2026, o ensaio randomizado comparou anticoagulação oral com ausência de anticoagulação nessa população.

O estudo fornece evidência randomizada para uma decisão que, até então, era sustentada por evidência menos direta. O benefício potencial na prevenção de eventos tromboembólicos deve continuar sendo ponderado individualmente contra o risco hemorrágico, sobretudo porque a decisão de anticoagular permanece dependente do perfil clínico de cada paciente.

3. Ablação da fibrilação atrial: ritmo e sintomas não são a mesma coisa

O PVI-SHAM-AF trouxe uma questão importante para a interpretação dos resultados da ablação por cateter. O estudo comparou isolamento das veias pulmonares com procedimento sham em pacientes com fibrilação atrial sintomática. Embora a ablação tenha reduzido a recorrência da arritmia, a melhora da qualidade de vida relacionada à fibrilação atrial não foi significativamente superior à observada no grupo submetido ao procedimento sham.

O resultado não invalida a eficácia da ablação no controle do ritmo. Ele mostra que redução da carga arrítmica e percepção de sintomas são desfechos distintos. Na prática, reforça a importância de definir previamente o objetivo do procedimento e discutir expectativas com o paciente.

4. STEMI e doença multiarterial: revascularização guiada pela fisiologia

O AIR-STEMI avaliou pacientes com infarto com supradesnivelamento do segmento ST e doença coronariana multiarterial. A estratégia para lesões não culpadas guiada por avaliação funcional derivada da angiografia foi comparada à estratégia orientada apenas pela angiografia convencional.

Os resultados apresentados no ESC Congress 2026 favorecem uma seleção mais criteriosa das lesões que realmente necessitam intervenção. Esse conceito é clinicamente relevante porque uma anatomia angiograficamente importante nem sempre corresponde a uma lesão funcionalmente significativa.

5. Regurgitação tricúspide grave: avanço do tratamento transcateter

O estudo TRIC-I-HF avaliou pacientes de alto risco com regurgitação tricúspide grave. O reparo transcateter associado ao tratamento clínico apresentou melhores resultados que o tratamento clínico isolado, incluindo redução do desfecho composto relacionado a mortalidade e hospitalização por insuficiência cardíaca.

A relevância está no tipo de desfecho observado. Estudos iniciais de intervenções estruturais frequentemente demonstram primeiro melhora de sintomas e qualidade de vida. Neste caso, os resultados apresentados alcançam eventos clínicos relevantes e poderão contribuir para futuras recomendações.

6. Aterosclerose silenciosa e prevenção cardiovascular

O estudo REACT chama atenção para a aterosclerose subclínica. Utilizando métodos de imagem vascular em adultos sem doença cardiovascular conhecida, os pesquisadores encontraram doença aterosclerótica silenciosa em uma parcela expressiva da população, inclusive em indivíduos jovens.

O achado reforça que aterosclerose se desenvolve muito antes da manifestação de infarto ou acidente vascular cerebral. Entretanto, detectar doença por imagem não significa que o rastreamento universal já esteja indicado. A questão decisiva é demonstrar se identificar esses indivíduos mais cedo e modificar sua abordagem reduz eventos cardiovasculares em comparação com a avaliação convencional de risco.

7. Uma nova definição universal de infarto do miocárdio

O ESC Congress 2026 também marcou a publicação da Quinta Definição Universal de Infarto do Miocárdio, elaborada em conjunto por ESC, American College of Cardiology, American Heart Association e World Heart Federation. O documento atualiza a estrutura usada para classificar infartos primários, secundários e relacionados a procedimentos, procurando alinhar o diagnóstico ao mecanismo fisiopatológico e à avaliação clínica.

O que muda para o cardiologista?

As novidades de 2026 apontam para uma cardiologia cada vez mais orientada por fenótipo, risco individual e evidência de desfechos. Na insuficiência cardíaca, a própria classificação pela fração de ejeção foi simplificada. Na fibrilação atrial, novos ensaios refinam tanto a indicação de anticoagulação quanto a interpretação dos benefícios da ablação. Na doença coronariana, cresce o papel da avaliação funcional para decidir quais lesões tratar. Na cardiologia estrutural, o tratamento transcateter da valva tricúspide avança para desfechos clínicos mais robustos.

Esses dados ainda precisam ser interpretados dentro das características de cada paciente, das recomendações formais e da evolução da evidência. O ponto central é que várias decisões tradicionais estão sendo recalibradas com estudos randomizados e novas diretrizes.

Referências selecionadas

European Society of Cardiology. 2026 ESC Guidelines for the management of heart failure. European Heart Journal. 2026. DOI: 10.1093/eurheartj/ehag100.

Kim D, Lee YS, Shim J, et al. Anticoagulation for Atrial Fibrillation with Intermediate Stroke Risk. New England Journal of Medicine. Published August 28, 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2607978.

European Society of Cardiology. Fifth Universal Definition of Myocardial Infarction. 2026.

European Society of Cardiology. ESC Congress 2026 Hot Line and Late-Breaking Science reports. Munich, 2026.

Conteúdo informativo e educacional. Não substitui avaliação médica individualizada.

Dr. Thiago Bandeca

 
 
 

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