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Diretrizes ESC 2025: miocardite e pericardite (IMPS), diagnóstico, risco e retorno ao exercício

  • Foto do escritor: Dr Thiago Bandeca
    Dr Thiago Bandeca
  • 2 de jul.
  • 4 min de leitura

As Diretrizes ESC 2025 para miocardite e pericardite trouxeram uma mudança importante na forma de interpretar inflamações que podem envolver o músculo cardíaco e o pericárdio, a membrana que envolve o coração. O documento introduz o conceito de síndrome miopericárdica inflamatória, ou IMPS, uma expressão ampla usada durante a investigação inicial até que o diagnóstico final seja definido.

A razão é prática: miocardite e pericardite podem se sobrepor. O paciente pode ter inflamação predominantemente no pericárdio, predominantemente no miocárdio ou em ambos. Em vez de tratar esses quadros como compartimentos isolados desde o início, a diretriz propõe uma abordagem mais integrada, orientada por sintomas, exames, risco e evolução clínica.

O que são miocardite e pericardite?

Miocardite é a inflamação do músculo cardíaco. Pode se manifestar com dor no peito, falta de ar, palpitações, arritmias, queda da função do coração ou, em casos graves, insuficiência cardíaca e choque cardiogênico. Pericardite é a inflamação do pericárdio. O sintoma mais típico é dor no peito que piora ao respirar fundo ou deitar e melhora ao sentar ou inclinar o tronco para frente.

As duas condições podem ocorrer após infecções virais, doenças autoimunes, condições inflamatórias, medicamentos, tratamentos oncológicos, procedimentos cardíacos, tuberculose em contextos específicos, doença de Chagas em regiões endêmicas e outras causas. Em muitos casos, a causa inicial não é identificada de forma simples.

Por que o conceito de IMPS é relevante?

O termo IMPS funciona como um guarda-chuva diagnóstico. Ele ajuda o médico a reconhecer que dor no peito, troponina elevada, alterações no eletrocardiograma, derrame pericárdico, inflamação sistêmica, arritmias ou falta de ar podem pertencer ao mesmo espectro de doença inflamatória cardíaca.

Essa mudança evita dois erros comuns: subestimar miocardite em um quadro inicialmente parecido com pericardite e interpretar dor torácica inflamatória como se fosse sempre doença coronariana ou apenas ansiedade. A investigação precisa excluir causas graves, como síndrome coronariana aguda, mas também precisa considerar inflamação cardíaca quando houver sinais compatíveis.

Sinais de alerta que merecem avaliação

A diretriz destaca sinais de alerta para miocardite e pericardite. Entre eles estão dor no peito após quadro gripal ou gastrointestinal, palpitações, falta de ar, síncope, instabilidade hemodinâmica, alterações no eletrocardiograma, elevação de troponina, elevação de marcadores inflamatórios, sintomas de insuficiência cardíaca, arritmias ventriculares, derrame pericárdico ou sinais de tamponamento cardíaco.

Na prática, dor no peito associada a falta de ar importante, desmaio, palpitações intensas, queda de pressão, febre persistente, piora progressiva, arritmia ou alteração de exames não deve ser conduzida apenas com observação informal. A avaliação médica define se o caso é de baixo, intermediário ou alto risco.

Pericardite Miocardite

Diagnóstico moderno: não é apenas um exame

A avaliação inicial recomendada inclui história clínica, exame físico, eletrocardiograma, radiografia de tórax quando indicada, exames laboratoriais, marcadores de lesão miocárdica como troponina, marcadores inflamatórios como proteína C reativa, marcadores de insuficiência cardíaca como NT-proBNP e ecocardiograma.

A ressonância magnética cardíaca ganhou papel central. Ela permite avaliar edema, inflamação, fibrose, realce tardio e comprometimento do miocárdio ou do pericárdio. Em muitos casos, ajuda a confirmar o diagnóstico de forma não invasiva, orientar risco, acompanhar evolução e apoiar a decisão sobre retorno às atividades físicas.

Quando a internação pode ser necessária?

Nem todo caso de pericardite ou suspeita de miocardite exige internação, mas alguns achados aumentam o risco. Na miocardite, preocupam insuficiência cardíaca aguda, choque, síncope, arritmias ventriculares sustentadas, bloqueios avançados, fração de ejeção reduzida, realce tardio extenso na ressonância e troponina persistente ou recorrente.

Na pericardite, febre acima de 38 °C, derrame pericárdico moderado ou grande, sinais de tamponamento, falha ao tratamento anti-inflamatório, pericardite incessante, constrição ou sinais de insuficiência cardíaca direita exigem maior atenção. O objetivo é reconhecer rapidamente quem precisa de monitorização, investigação etiológica ou tratamento hospitalar.

Tratamento e retorno à atividade física

O tratamento depende da apresentação, do risco, da causa provável e dos exames. Pericardite costuma envolver anti-inflamatórios e colchicina quando indicados, sempre com avaliação de contraindicações. Miocardite exige cautela adicional, especialmente se houver queda da função cardíaca, arritmias ou suspeita de formas específicas que possam exigir terapias direcionadas.

Um ponto importante das diretrizes é evitar prazos rígidos iguais para todos. A restrição temporária de atividade física deve ser individualizada até remissão clínica, melhora dos sintomas, normalização de marcadores e reavaliação dos exames. Retornar cedo demais ao exercício pode ser arriscado em alguns casos, especialmente quando há miocardite ativa ou arritmias.

Acompanhamento é parte do tratamento

A resolução da dor não significa necessariamente que o processo inflamatório terminou. Dependendo do caso, podem ser necessários novo eletrocardiograma, ecocardiograma, Holter, exames laboratoriais, teste de esforço, ressonância cardíaca ou avaliação especializada antes de liberar atividade física, trabalho intenso ou esporte competitivo.

As Diretrizes ESC 2025 reforçam a importância de equipes multidisciplinares em casos complexos, especialmente quando há suspeita de miocardite de alto risco, pericardite recorrente, causas autoimunes, doenças sistêmicas, arritmias, insuficiência cardíaca, gravidez, pediatria, tratamento oncológico ou necessidade de exames avançados.

Mensagem final

Miocardite e pericardite não devem ser vistas como diagnósticos simples ou iguais para todos. A nova abordagem da ESC propõe reconhecer o espectro da síndrome miopericárdica inflamatória, estratificar risco, usar imagem multimodal quando indicada e individualizar tratamento, repouso, retorno às atividades e seguimento.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica. Dor no peito, falta de ar, desmaio, palpitações, febre persistente ou piora clínica devem ser avaliados por profissional habilitado.

Fonte principal: Schulz-Menger J, Collini V, Gröschel J, et al. 2025 ESC Guidelines for the management of myocarditis and pericarditis. European Heart Journal. 2025;46:3952–4041. DOI: 10.1093/eurheartj/ehaf192.

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