Inflamação cardiovascular: o que o estudo POSEIDON revela sobre o risco que pode passar despercebido
- Dr Thiago Bandeca
- há 2 dias
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Durante muitos anos, a prevenção cardiovascular foi explicada quase sempre pelos mesmos fatores: colesterol, pressão arterial, diabetes, tabagismo, obesidade e sedentarismo. Todos continuam fundamentais. Mas uma parte do risco pode persistir mesmo quando esses fatores estão sendo tratados. Esse componente é conhecido como risco residual.
Um dos possíveis componentes do risco residual é a inflamação cardiovascular. O estudo POSEIDON trouxe esse tema para o centro da discussão ao avaliar, em dados de vida real, a prevalência de inflamação cardiovascular medida por PCR-us, ou proteína C reativa ultrassensível, em pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica, doença renal crônica e insuficiência cardíaca.
O que é inflamação cardiovascular?
Inflamação cardiovascular não significa, necessariamente, uma infecção ou uma dor evidente. Em muitos casos, trata-se de uma ativação inflamatória crônica de baixo grau, associada à fisiopatologia da aterosclerose, da insuficiência cardíaca e de eventos cardiovasculares adversos.
Na prática clínica e em estudos cardiovasculares, a PCR-us pode ser usada como marcador laboratorial dessa inflamação sistêmica de baixo grau. Valores iguais ou superiores a 2 mg/L são frequentemente usados em pesquisa como ponto de corte para identificar maior risco inflamatório. Isso não transforma o exame em diagnóstico isolado, mas pode acrescentar informação em contextos selecionados.
Por que o estudo POSEIDON foi realizado?
A proposta do POSEIDON foi avaliar o quanto a inflamação cardiovascular permanece presente em pacientes de alto risco, usando evidências do mundo real. O estudo incluiu dados contemporâneos coletados principalmente em clínicas de cardiologia, com pacientes adultos sem hospitalizações, visitas não planejadas ou infecções recentes nos 60 dias anteriores.
Ao todo, foram avaliados 18.904 pacientes em 11 países e 3 clusters, totalizando 18 países. Os pacientes foram organizados em coortes que incluíam doença cardiovascular aterosclerótica com ou sem doença renal crônica, insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada ou levemente reduzida e insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida.
O principal achado: a inflamação pode persistir
O ponto central do estudo é que a inflamação cardiovascular medida por PCR-us ≥2 mg/L permaneceu frequente em diferentes perfis de pacientes. O material do POSEIDON destaca que essa inflamação foi observada mesmo em pacientes tratados com terapias hipolipemiantes, inibidores de SGLT2 ou agonistas do receptor GLP-1.
Esse achado não diminui a importância desses tratamentos. Pelo contrário: ele mostra que, mesmo com terapias modernas, alguns pacientes podem manter risco residual que precisa ser melhor compreendido. A pergunta clínica deixa de ser apenas “o LDL está controlado?” e passa a ser “o risco global está controlado?”.
Inflamação cardiovascular e comorbidades
Outro ponto relevante é que a inflamação cardiovascular permaneceu prevalente em pacientes com insuficiência cardíaca, mesmo quando havia hipertensão arterial ou diabetes tipo 2. Isso sugere que a inflamação não deve ser vista apenas como consequência automática de uma comorbidade isolada.
Na prática, hipertensão, diabetes, doença renal, insuficiência cardíaca, obesidade, aterosclerose e inflamação podem coexistir e se amplificar. A avaliação cardiológica moderna precisa integrar esses elementos, em vez de analisar cada fator de forma desconectada.
E se o IMC não estiver alto?
O POSEIDON também chama atenção para um ponto importante: o risco inflamatório pode persistir mesmo em pessoas com IMC abaixo de 27 kg/m². No material apresentado, aproximadamente 40% dos pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada ou reduzida e IMC abaixo desse valor tinham PCR-us ≥2 mg/L.
Isso reforça uma mensagem essencial: risco cardiometabólico não deve ser estimado apenas pela aparência corporal ou pelo peso. Há pacientes com IMC não elevado que ainda podem ter risco cardiovascular relevante por idade, histórico familiar, doença renal, aterosclerose, insuficiência cardíaca, tabagismo, sedentarismo, composição corporal, inflamação ou outros marcadores clínicos.
PCR-us: quando pode ajudar e quando pode confundir
A PCR-us é um exame útil em perguntas clínicas específicas, mas não deve ser interpretada de forma isolada. Ela pode estar elevada por vários motivos, como infecção recente, doença inflamatória, tabagismo, obesidade, sedentarismo, doença renal, diabetes, trauma, uso de alguns medicamentos ou outras condições clínicas.
Por isso, pedir PCR-us sem contexto pode gerar ansiedade e interpretações erradas. O valor do exame depende da pergunta que motivou sua solicitação, do momento clínico, da repetição quando necessário e da integração com colesterol, pressão, glicose, função renal, sintomas, exames de imagem e histórico cardiovascular.
O que isso muda para o paciente?
O estudo POSEIDON não significa que todos os pacientes devam dosar PCR-us de rotina. Também não significa que inflamação cardiovascular já tenha uma conduta única e padronizada para todos. O que ele reforça é que o risco cardiovascular é mais amplo do que colesterol e pressão isoladamente.
Para pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, diabetes, obesidade cardiometabólica ou risco persistente apesar de tratamento, pode fazer sentido discutir com o cardiologista se há necessidade de uma avaliação mais abrangente do risco residual.
Risco cardiovascular exige visão integrada
A prevenção cardiovascular de qualidade deve considerar o paciente como um todo: LDL, colesterol não HDL, triglicerídeos, pressão arterial, glicose, hemoglobina glicada, função renal, peso, circunferência abdominal, sono, atividade física, tabagismo, alimentação, histórico familiar, sintomas e adesão ao tratamento.
A inflamação entra nessa conversa como um possível componente adicional do risco, especialmente em pacientes mais complexos. Ela não substitui os fatores clássicos, mas pode ajudar a explicar por que alguns pacientes continuam em risco mesmo quando parte do tratamento já está instituída.
Mensagem final
O estudo POSEIDON reforça uma ideia importante: o risco cardiovascular pode permanecer oculto quando olhamos apenas para os suspeitos tradicionais. Colesterol, pressão e diabetes continuam centrais, mas a inflamação cardiovascular pode ser uma parte relevante da história em pacientes selecionados.
A melhor abordagem não é transformar um marcador laboratorial em diagnóstico, mas usar a informação certa, no paciente certo, no contexto certo. Esse é o caminho para uma cardiologia mais personalizada, preventiva e orientada por evidências.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica. A solicitação e interpretação de PCR-us, assim como qualquer decisão sobre prevenção cardiovascular, devem ser individualizadas por profissional habilitado.
Fontes principais: Novo Nordisk Academy, Estudo POSEIDON; Lam CSP et al. European Journal of Heart Failure, 2026; Ridker P et al. Circulation, 2024; ClinicalTrials.gov NCT06122961; documentos recentes sobre inflamação e doença cardiovascular citados no material original.

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