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Doença cardiovascular em 2025: o que os números da ESC revelam sobre prevenção e longevidade

  • Foto do escritor: Dr Thiago Bandeca
    Dr Thiago Bandeca
  • 2 de jul.
  • 3 min de leitura

O relatório European Society of Cardiology: Cardiovascular Disease Statistics 2025, publicado no European Heart Journal, reúne dados contemporâneos de mais de 50 países membros da ESC. Embora seja um retrato europeu, ele traz uma mensagem universal para pacientes e sistemas de saúde: a doença cardiovascular continua sendo um dos maiores desafios da medicina moderna.

O Atlas ESC 2025 mostra que a doença cardiovascular segue como a principal causa de morte nos países avaliados. Em 2023, houve mais de 9 milhões de novos casos, cerca de 121 milhões de pessoas vivendo com doença cardiovascular e mais de 3 milhões de mortes atribuídas a causas cardiovasculares. Também foram estimados 68 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade relacionados à doença cardiovascular.

A prevenção melhorou, mas o risco mudou de forma

Uma boa notícia é que a incidência de doença cardiovascular caiu nas últimas décadas. O relatório descreve redução aproximada de 25% na incidência entre 1990 e 2023 nos países membros da ESC. Porém, essa melhora não elimina o problema: o envelhecimento populacional mantém alta a prevalência de doenças crônicas do coração e dos vasos.

Esse ponto é essencial para discutir longevidade. Viver mais é uma conquista, mas viver mais tempo com hipertensão, diabetes, obesidade, doença coronariana, fibrilação atrial, insuficiência cardíaca ou doença renal exige acompanhamento contínuo, prevenção estruturada e decisões clínicas individualizadas.

Hipertensão continua no centro do risco

O relatório destaca a hipertensão como o principal fator modificável de morte e incapacidade cardiovascular na região europeia. A pressão alta costuma evoluir silenciosamente, mas aumenta risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca, doença renal e demência vascular.

Para o paciente, a mensagem prática é direta: medir a pressão corretamente, reconhecer padrões ao longo do tempo e tratar de forma consistente importa mais do que esperar sintomas. Pressão arterial não deve ser avaliada apenas em consultas isoladas; ela precisa ser acompanhada como marcador longitudinal de risco.

Obesidade, diabetes e sedentarismo ameaçam os avanços

O Atlas alerta que a epidemia de obesidade e diabetes pode reduzir os ganhos obtidos em saúde cardiovascular. Em 2022, a prevalência mediana de sobrepeso e obesidade em adultos nos países avaliados foi estimada em 57,4% e 23,2%. A obesidade quase dobrou desde 1990.

O excesso de gordura corporal não atua apenas pelo peso. Ele se relaciona com resistência à insulina, inflamação, hipertensão, dislipidemia, gordura no fígado, apneia do sono e maior risco cardiometabólico. Por isso, saúde cardiovascular moderna não deve olhar apenas para colesterol e pressão, mas para composição corporal, cintura abdominal, glicose, sono, alimentação, atividade física e contexto de vida.

Atividade física e alimentação seguem como pilares

O relatório reforça que baixa atividade física é um fator de risco modificável e ainda muito prevalente. Em 2022, cerca de um quarto dos adultos nos países membros da ESC foram classificados como insuficientemente ativos, com prevalência maior em mulheres.

A recomendação não precisa começar por metas complexas. Caminhar, reduzir tempo sentado, ganhar massa muscular, melhorar o sono, organizar a alimentação e tratar fatores de risco são passos que se somam. A prevenção cardiovascular efetiva depende de constância, não de intervenções isoladas e temporárias.

Ambiente e desigualdade também afetam o coração

Um ponto forte do Atlas ESC 2025 é mostrar que risco cardiovascular não é apenas individual. Poluição do ar, calor extremo, ruído urbano, insegurança alimentar, renda, escolaridade, acesso a especialistas e disponibilidade de tratamentos avançados também influenciam desfechos cardiovasculares.

A mortalidade cardiovascular ajustada por idade foi cerca de duas vezes maior em países de renda média em comparação com países de alta renda. Isso mostra que acesso, organização do sistema de saúde, diagnóstico precoce e continuidade do cuidado podem modificar profundamente os resultados.

O que esses dados ensinam para o paciente brasileiro

Mesmo sendo um relatório europeu, a lógica se aplica à prática clínica no Brasil: prevenir doença cardiovascular exige avaliação integrada. Não basta olhar um exame isolado. É preciso reunir idade, histórico familiar, pressão, colesterol, diabetes, peso, cintura abdominal, tabagismo, sono, estresse, atividade física, sintomas e exames complementares quando indicados.

A consulta cardiológica preventiva deve ajudar a responder perguntas objetivas: qual é o risco atual? Quais fatores podem ser modificados? Quais metas são prioritárias? Há necessidade de exames? O plano é sustentável para a rotina real do paciente? O acompanhamento está sendo suficiente para manter controle ao longo do tempo?

Mensagem final

Os números da ESC mostram que cardiologia não é apenas tratamento de eventos agudos. É prevenção, acompanhamento, longevidade, qualidade de vida e redução de risco ao longo dos anos. O melhor momento para cuidar do coração raramente é quando surge uma emergência; é antes, quando ainda há tempo de mudar a trajetória.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica. A avaliação do risco cardiovascular deve ser individualizada por profissional habilitado.

Fonte principal: Timmis A, Petersen SE, Van Belle E, et al. European Society of Cardiology: cardiovascular disease statistics 2025. European Heart Journal. 2026. DOI: 10.1093/eurheartj/ehag345.

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